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Instituto de Cooperação quer parcerias com centrais estrangeiras para mudar modelos de desenvolvimento locais e regionais


07/02/2013 - Isaías Dalle

 

Foto de Roberto ParizottiCom a criação do ICCUT, a central pretende abrir uma nova frente de cooperação, especialmente na área internacional. O que você acredita que o Instituto pode trazer de inovador nesse campo?

Artur:A criação do Instituto responde na verdade a uma demanda de alguns anos da CUT, que é a de se colocar como a maior central do Brasil, a mais representativa, mas também uma das principais do mundo, da América Latina. A CUT nasceu com o apoio de organizações, de entidades, de centrais sindicais do mundo todo que, naquele momento, naquela conjuntura, de redemocratização do País, trabalharam muito para que a CUT pudesse não só existir, mas se relacionar com o movimento sindical do mundo todo. E ao longo desses 30 anos da nossa existência, e em especial nos últimos anos iniciados com a eleição do ex-presidente Lula, há um consenso no exterior de que o Brasil atingiu um grau de intervenção na política externa que é elogiado por grande parte das pessoas que militam nessa área.

Essa experiência tem chamado muito a atenção de militantes e sindicalistas de outros países.

Se isso for verdade por parte das ações do governo, também é do ponto de vista sindical. A CUT passa a ter cada vez mais uma importância fundamental, por ter conseguido atravessar esse período mantendo sua liberdade e autonomia, mas que nunca foi indiferente.

Portanto, a CUT está vivendo um momento muito propício para aprofundar a cooperação com nossas parceiras históricas do movimento sindical no mundo todo. Por outro lado, o Brasil e a CUT têm hoje maiores condições de cooperar com entidades que hoje enfrentam as mesmas dificuldades que nós enfrentamos no nascimento da CUT.

O Instituto chega, portanto, para em primeiro lugar aprofundar essa relação que já é histórica e, em segundo lugar, para se colocar como uma central que quer participar, que quer contribuir com centrais da América Latina e da África para fortalecer essas organizações. Precisamos fortalecer uma visão de que é necessária a existência de centrais sindicais fortes, representativas, que possam implementar de fato no dia-a-dia os acordos coletivos, avançar para  acordos coletivos internacionais e  o fortalecimento da liberdade sindical.

Das experiências que a CUT tem relatado quais estão chamando mais a atenção e quais você acha podem ser aplicadas de maneira objetiva?

O que temos percebido é que existe uma enorme curiosidade para saber como foi a relação da CUT com o governo Lula e quais as experiências que nós acumulamos no período. Mas eu sinto que a construção daquilo que chamamos de Plataforma da CUT para um novo modelo de desenvolvimento é uma coisa que chama muito a atenção.

Eu posso usar como exemplo o fato de que temos conversado com companheiros do Chile, de El Salvador, de países da África, que veem nessa possibilidade de construir uma experiência de longo prazo. Quando falamos na construção de uma jornada do desenvolvimento, nós estamos falando de que tipo de desenvolvimento queremos, qual o papel do Estado, qual o papel da questão fiscal e monetária nos países, qual o papel do movimento sindical, do partido, do governo, como se dá essa relação.

E o Instituto pode, e com certeza vai, ajudar na construção de plataformas para que as entidades de outros países possam incidir, intervir nesse modelo de desenvolvimento. Hoje há diversos projetos de investimentos em infraestrutura na América do Sul e na América Central e o papel do movimento sindical é interferir nesses projetos.

Tem uma terceira área que tem a ver com tudo isso que nós estamos falando: o Brasil não está preparado para este momento que nós estamos assistindo.

O que está faltando?

Tudo. Por exemplo: nós não temos uma política externa e uma política de cooperação externa com esta visão de que o Brasil não é mais aquele país de 20 anos atrás. Nós não podemos continuar tendo um país que pode chegar a ser a sexta economia do mundo mas que tem uma política de cooperação que é absolutamente irrisória diante dos desafios que a gente tem pela frente. O Brasil precisa adaptar a sua legislação interna, construir uma política de cooperação que envolva os atores sociais.

Outra coisa é que em boa parte dos países desenvolvidos existe uma fatia bastante generosa do orçamento público voltado para ações de cooperação. Há um conjunto de legislações e de fundos que podem ser acessados por parte de organizações sindicais ou sociais, para inúmeros projetos. E aqui no Brasil você não tem isso.

Este também é um desafio para o Instituto. Em 2013 nós queremos discutir política externa, vamos organizar uma conferência ou seminário sobre política externa com as organizações dos movimentos social e sindical, estamos propondo ao governo que realize uma conferência oficial sobre política externa.

Essa política de cooperação com olhar social, em que os movimentos sociais sejam protagonistas, depende então em grande parte do Estado?

Depende do Estado mas também depende de nós, quer dizer, depende de um processo de mobilização, de articulação. Por isso a figura do Instituto é fundamental para dar esse salto de qualidade. A ideia é não só demonstrar que através do Instituto podemos continuar crescendo e fortalecendo entidades sindicais como a CSI (Confederação Sindical Internacional)e a CSA (Confederação Sindical das Américas), às quais a CUT é filiada, mas principalmente mostrar que nós temos de fazer articulação com outras organizações. Nós estamos propondo através do Instituto fazer uma articulação com universidades, com outras centrais, com outros institutos, como o Instituto Lula, como a Fundação Perseu Abramo, com as fundações de outros partidos de esquerda do Brasil e de outros países, pois isso tem uma importância grande em debater essa questão mais estratégica, mais de longo prazo, que é o papel das esquerdas.

Passados menos de quatro anos do início da crise, parece que o culpado da crise não é mais o sistema financeiro desregulado, mas o estado de bem-estar europeu. Quer dizer, se gastam trilhões para salvar bancos e empresas e agora se faz um processo de retirada, de ataque aos direitos dos trabalhadores na Europa, com medidas propostas pelo FMI e pelo Banco Central Europeu que vão aprofundar a crise.

Bom, se nós temos esse diagnóstico, que eu diria que é quase consensual entre a esquerda mundial, por que a esquerda não consegue apresentar uma alternativa coerente?

Você tem uma resposta a essa pergunta?

Nós deixamos de avaliar, de incidir, em vários países, porque a gente entra no dia-a-dia. Um exemplo: se você não pensar nas transformações do modelo, se a esquerda não tiver um programa político de transformação da sociedade, nós temos de construir outro modelo. Se esse modelo não está pronto, a grande oportunidade que nós temos são as experiências positivas, todas elas com limites, com senões, com pontos positivos e negativos, mas você tem experiências importantes na Venezuela, na Argentina, no Brasil, o papel da China no mundo de hoje, dos Bric’s, ou seja, você tem um conjunto que tem de ser apropriado pela esquerda, o que você não pode é cometer o erro que alguns partidos de esquerda da Europa, por exemplo, fizeram, que é cometer os mesmos erros que a gente se propôs a ir contra.

Você fala de partidos de esquerda europeus, e isso é algo que vem ocorrendo há tempos, e em grande parte pela pressão da mídia, uníssona a partir dos anos 1980, a retratar uma visão distorcida da economia. Sem romper esse cerco da mídia, fica difícil, não?

Eu considero esse tema, junto com, no caso do Brasil, a reforma política, mas no caso da América Latina, e em outros países, o tema da comunicação é absolutamente prioritário para o próximo período. O que nós estamos falando é, em primeiro lugar, que há uma responsabilidade dos movimentos social, sindical, dos partidos de esquerda, em construir alternativas. O que isso quer dizer? Que há a necessidade de uma articulação muito grande no sentido de forçar a esquerda a ter um projeto estratégico de comunicação, investindo nos vários meios ou ferramentas de comunicação

Vou usar alguns exemplos práticos. Muitos sindicatos nossos criticam o fato de o governo do Estado de São Paulo, fruto dessa aliança entre o PSDB e a mídia, comprar revistas da editora Abril, por exemplo, pra distribuir em salas de aula. Isso quer dizer que nossas crianças, os filhos dos trabalhadores, estão sendo levados a ler reportagens com um caráter ideológico. E a esquerda, vai fazer o quê? Não vai fazer nada? Não podemos construir uma alternativa? E eu estou dizendo aqui que devemos fazer uma aliança estratégica com o setor da educação, porque é ali que se vai formar a consciência crítica.

Você tem alguma ideia concreta do que poderia ser feito?

Acho que já existem no País diferentes experiências de veículos de comunicação que deveriam ser mais bem sistematizadas para potencializar os resultados. A Rede Brasil Atual é uma delas. Se você pegar as nossas entidades sindicais, há várias com projetos e programas de comunicação, então é preciso sistematizar melhor, afinar melhor esse processo.

Segundo, é preciso discutir mais uma vez este ano porquê as empresas estatais e alguns ministérios têm suas verba de publicidade levadas por essa mesma mídia que nos ataca diariamente.

Outro exemplo. No caso da CUT, nós podemos construir uma articulação com nossas entidades da educação, a CNTE, nossos sindicatos estaduais e municipais espalhados por todo o Brasil, no sentido de construir uma grade alternativa, podemos pensar em que tipo de intervenção podemos construir nas escolas.

Um exemplo. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, anunciou uma parceria com o governo federal, junto com o Ministério da Educação, no Programa Juventude Viva, que vai incluir no currículo das escolas públicas da cidade o ensino de Direitos Humanos e Cidadania. Repare, é nisso que estamos falando: como trazer novos conteúdos para as crianças e adolescentes. Esse me parece um desafio estratégico na área de comunicação.

E quando falamos do marco regulatório das comunicações, estamos dizendo por que na Argentina a Cristina Kirchner pode enfrentar os meios de comunicação – e ela não está querendo acabar com as empresas, ela quer impedir a propriedade cruzada dos meios. Senão, meia dúzia de famílias constrói uma opinião a partir de sua visão particular, controlando mais de 90% de tudo que se vê, ouve ou lê. Mas não é fácil fazer esse enfrentamento, por isso tem de haver uma articulação muito forte com os movimentos sociais, sindical, as esquerdas, os partidos, para enfrentar a reação da direita a uma iniciativa dessa.

Na Argentina e na Venezuela há um enfrentamento, mas aqui, não. Mas, mudando um pouco, você acha possível que o governo pode montar um projeto de cultura e produção artística em conjunto com os sindicatos?

Eu não tenho dúvida de que isso é um assunto absolutamente prioritário. Projeto de cultura, que envolva toda a área – música, teatro, dança, hip hop, juventude – aproveitando não só a capilaridade do movimento sindical, mas principalmente sua base social e sua estrutura física, para promover políticas nessa área.

Eu não digo que entendo, mas em política eu costumo avaliar as coisas tentando imaginar o que o outro está pensando. E o outro, neste caso, é o governo Dilma. Eu sinto que há uma preocupação em abrir muitas frentes. Não estou dizendo que concordo com essa avaliação, mas é verdade que o governo Dilma enfrentou uma questão absolutamente estratégica do ponto de vista macroeconômico,que feriu e fere poderosos interesses, que é a questão da redução da taxa de juros. Isso é suficiente para que a imprensa começa a dizer ‘a inflação está voltando’, ou falar do ‘pibinho’ e lá, lá, lá (...)

Segundo eles, uma das razões de o PIB ter caído é que os bancos lucraram menos...

A articulação está dada. É uma conjuntura em que você vê que o setor privado tem mais de R$ 200 bilhões em depósitos bancários e clamam por investimento. Investimento de quem? Do BNDES, investimento público. Mas o dinheiro deles está guardado, para aplicar em títulos. Então, ela enfrentou uma questão que inclusive é ideológica do ponto de vista da macroeconomia, o que fere poderosos interesses. E me parece que ao tomar esse tipo de decisão o governo avalia que não pode abrir outro flanco de disputas contra poderosos interesses, como o caso da disputa com a mídia.  Eu posso até achar que é isso, essa é minha percepção pessoal, mas acho que se o governo, os partidos de esquerda não enxergarem essa questão da comunicação como uma das questões prioritárias, nós não vamos conseguir romper essa barreira.

Uma das armas que a imprensa usa é a opinião de supostos analistas e especialistas em economia, através de números muitas vezes mal feitos, que tentam provar que as coisas estão erradas. Por outro lado, nós temos centros de excelência que produzem dados importantes que não chegam ao conhecimento da sociedade. Isso pode mudar?

Eu acho que tanto a gente tem de usar os mecanismos já existentes, que não são poucos – e volto a insistir, esses mecanismos são usados de forma compartimentada. O dever da CUT é envolver as entidades para que elas usem parte de seus meios de informação para matérias de interesse mais geral, que são os temas da política, da economia, da liberdade, da democracia.

As coisas são muito rápidas, e a gente tem de ser rápido também. Aí entram as redes sociais, a gente tem de aprender a reproduzir, a espalhar as notícias que produzimos.

Nesse ponto que você abordou, muitos desses temas são muito densos, muito complexos. Por exemplo: o Dieese produz um estudo sobre o impacto de determinada medida na economia. Mesmo que a abordagem seja positiva, nós não fazemos disso um material que seja empolgante.

Outra arma usada pela mídia é explorar a questão da moralidade e sempre associá-la com a esquerda. Sobre isso, como os movimentos sociais podem contribuir em 2013?

A corrupção é algo grave e tem de ser combatido. Em todas as frentes, com a consciência de que ela está impregnada em toda a sociedade, e não só na brasileira.

Na área empresarial, por exemplo, há setores que usam da corrupção para fazer concorrência desleal com aqueles que cumprem a lei. Disso pouco se fala.

As armas para combater a corrupção estão aí. A transparência é essencial. Não podemos mais ter, por exemplo, no movimento sindical, dirigentes que não declarem seu patrimônio e não os divulguem na página de sua entidade. Ou sindicatos que se recusem a divulgar o acordo coletivo fechado recentemente. Quer dizer, eu estou defendendo isso para nós porque defendo isso para o setor empresarial. A transparência é absolutamente fundamental.

E nós temos de atacar também o problema essencial, que para mim é a reforma política. Acho que temos de priorizar isso também em 2013. A CUT se movimentou nesse sentido no período anterior, tomou resolução, fez um seminário sobre o tema, mas com pouca garantia de que outros setores e atores nos acompanhariam. Acho que agora estamos num momento diferente. Ou nós damos um basta na interferência econômica nos processos eleitorais, junto com a mudança nas comunicações, ou nós não vamos longe.

O tema da reforma política é muito amplo. Envolve uma série de propostas. Mas um tema é central: o financiamento público de campanha. Porque aí você minimiza – não vou dizer que acaba – o poder econômico nas eleições. Esse é um assunto prioritário para 2013.

Mas a população está sendo tão bombardeada pela ideia de que política é corrupção e que corrupção é política, que provavelmente vai se perguntar: ‘Querem que eu pague por isso?’.

Na verdade a população já paga. Cabe a nós mostrar como paga. Se um grande empresário investe em alguma candidatura, ele vai cobrar a fatura depois da eleição. Isso virá invariavelmente na forma de elevação de preços de serviços, de produtos, de obras públicas. E na própria corrupção.

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